As parras
Gosto do Outono. Além de suscitar nostalgias agradáveis brinda-nos com as folhas como nenhuma outra estação. Eu gosto de folhas, de todas, mas muito especialmente das folhas parras que são as folhas das parreiras (outros dizem videiras). As parras, no Outono, são únicas quando asssumem cores que o pincel do artista só imita. Comparáveis, talvez as de plátano. É vê-las ainda mal presas à vide, a caírem frágeis sob uma brisa suave ou espalhadas em chão rústico acolhedor. As parras são úteis e são inúteis. Úteis para fertilizar e servir de metáfora (“muita parra e pouca uva”) e de inspiração à fábula da raposa astuta mas despeitada de La Fontaine: “ainda estão verdes”. Inúteis como as que, intrigado, vi nos museus do Vaticano a taparem o sexo daquelas belas estátuas produzidas pelo génio clássico e renascentista. “Uma parrachachada» pensei então, sem reparar na perversidade do neologismo em local tão púdico. Para mim melhor que as amendoeiras em flor anunciando a Primavera só as parras do Douro despedindo-se do Verão.
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
«Amália». É um filme com texto vulgar mas bem realizado e muito bem sonorizado. Não sei qual o critério da escolha dos fados, todavia não consta o que, para mim, é dos mais belos. A letra foi escrita pelo poeta António de Sousa Freitas e musicada pelo Alfredo Duarte (Marceneiro) e faz parte do célebre CD do busto:
Na rua do silêncio
é tudo mais ausente,
até foge o luar
e até a vida é pranto.
Não há juras de amor,
não há quem nos lamente
e o sol quando lá vai
é p'ra deitar quebranto.
Na rua do silêncio
o fado é mais sombrio
e as sombras duma flor
não cabem lá também.
A rua tem destino
e o seu destino frio
não tem sentido algum,
não passa lá ninguém.
Na rua do silêncio
as portas estão fechadas
e até o sonho cai
sem fé e sem ternura.
Na rua do silêncio
há lágrimas cansadas.
Na rua do silêncio
é sempre noite escura.
Na rua do silêncio
é tudo mais ausente,
até foge o luar
e até a vida é pranto.
Não há juras de amor,
não há quem nos lamente
e o sol quando lá vai
é p'ra deitar quebranto.
Na rua do silêncio
o fado é mais sombrio
e as sombras duma flor
não cabem lá também.
A rua tem destino
e o seu destino frio
não tem sentido algum,
não passa lá ninguém.
Na rua do silêncio
as portas estão fechadas
e até o sonho cai
sem fé e sem ternura.
Na rua do silêncio
há lágrimas cansadas.
Na rua do silêncio
é sempre noite escura.
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
Sempre fui mais interessado pelo social do que pelo político.Creio, mesmo, que é pela dimensão social que se deveria aferir a política. Não conheço critério para avaliação do progresso político, se é que este existe; já o progresso social pode existir ou não de acordo com parâmetros objectivos. Nestes dias tenho sorrido com forte cor amarela ao ouvir aqueles que, defensores acérrimos do W Bush, vêm agora, depois da derrota, culpá-lo pelos desastres da governação. Ora não foi o político que perdeu; o social é que poderá ter ganho.
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
a crise chegou adeus
“Estamos a perceber, com o colapso dos grandes bancos, que o dinheiro desaparece, não é nada. Apenas as palavras de Deus são uma sólida realidade”. Papa Bento XVI (Visão nº 814, de 9/10/08).
Deus poderá não estar em falência mas o seu valor facial não convida nada à compra!
Deus poderá não estar em falência mas o seu valor facial não convida nada à compra!
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
Arte e erotismo
A poesia, talvez por ser uma das forma de expressão mais queridas do povo português é, quanto a mim, dos monumentos mais respresentativos da nossa cultura. Através dela sim, somos originais e grandes, dos maiores. Na diversidade das suas formas, bem cedo começou a nossa expressão amorosa e erótica através das cantidas de amigo e de amor. Natália Correia prestou um bom serviço à história da nossa literatura com a «Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica», que lhe valeu a condenação pelo plenário da Boa-Hora (1970). Lembro aqui dois grandes poetas, que admiro:
José Régio, púdico e misógino, escreveu:
A mulher que eu amo, que impressão me faz!
De cabelos rasos, parece um rapaz.
Mas os olhos dela, sem ela querer,
É que dizem coisas que só de mulher.
...................................................................
E os seus dentes, frios no sorriso moço,
Sinto-os, só de vê-los, contra o meu pescoço.
...................................................................
Os seus seios hirtos, pequeninos, túmidos.
Bastam a que os olhos se me façam húmidos.
Suas mãos felinas, logo que me tocam,
Meus nervos agudos todos se deslocam.
Suas ancas – taças do prazer – transbordam
De ópios que adormentam.....mas que logo acordam.
......................................................................
Com seu riso aéreo nos lábios vermelhos,
Ela, então, recebe-me, entre os nus joelhos,
Sobre o longo corpo inteiramente franco....
E os seus olhos mortos bóiam só em branco.
[in «Filho do Homem»]
E David Mourão-Ferreira, fogoso e irreverente:
Que louro cabelo
Tão louro por dentro
Azuis, olhos verdes de mar de arvoredo
Ó branca e vermelha desde o tornozelo
Até às alturas dos ombros, da nuca.
Nem saia nem manta
Só te quero nua.
................................................................
Ó branca no peito, vermelha na boca,
Ó branca e vermelha na rosa do corpo
De rubro incendeias
[in «Música de cama»]
Algum deles terá sido sincero?
Eu não fingi quando escrevi a
Sinfonia erótica breve
O teu corpo esguio é de graça cheio,
É eros, cupido, ideal sonhado,
Fonte de prazer, fruto desejado,
Sedução bendita que faz meu enleio.
Teus lábios carnudos em cima e no meio,
Teu cabelo fino, de oiro quilatado,
Teu vénus erguido em monte cerrado,
Povoam meus sonhos, são o meu anseio.
Teus peitinhos, hirtos, apontando em frente,
Indicam caminhos, são faróis, são guia
Às minhas mãos ágeis, minha boca ardente;
E, embalados em suave melodia,
No clímax do amor, na volúpia quente,
São os nossos ais breve sinfonia.
José Régio, púdico e misógino, escreveu:
A mulher que eu amo, que impressão me faz!
De cabelos rasos, parece um rapaz.
Mas os olhos dela, sem ela querer,
É que dizem coisas que só de mulher.
...................................................................
E os seus dentes, frios no sorriso moço,
Sinto-os, só de vê-los, contra o meu pescoço.
...................................................................
Os seus seios hirtos, pequeninos, túmidos.
Bastam a que os olhos se me façam húmidos.
Suas mãos felinas, logo que me tocam,
Meus nervos agudos todos se deslocam.
Suas ancas – taças do prazer – transbordam
De ópios que adormentam.....mas que logo acordam.
......................................................................
Com seu riso aéreo nos lábios vermelhos,
Ela, então, recebe-me, entre os nus joelhos,
Sobre o longo corpo inteiramente franco....
E os seus olhos mortos bóiam só em branco.
[in «Filho do Homem»]
E David Mourão-Ferreira, fogoso e irreverente:
Que louro cabelo
Tão louro por dentro
Azuis, olhos verdes de mar de arvoredo
Ó branca e vermelha desde o tornozelo
Até às alturas dos ombros, da nuca.
Nem saia nem manta
Só te quero nua.
................................................................
Ó branca no peito, vermelha na boca,
Ó branca e vermelha na rosa do corpo
De rubro incendeias
[in «Música de cama»]
Algum deles terá sido sincero?
Eu não fingi quando escrevi a
Sinfonia erótica breve
O teu corpo esguio é de graça cheio,
É eros, cupido, ideal sonhado,
Fonte de prazer, fruto desejado,
Sedução bendita que faz meu enleio.
Teus lábios carnudos em cima e no meio,
Teu cabelo fino, de oiro quilatado,
Teu vénus erguido em monte cerrado,
Povoam meus sonhos, são o meu anseio.
Teus peitinhos, hirtos, apontando em frente,
Indicam caminhos, são faróis, são guia
Às minhas mãos ágeis, minha boca ardente;
E, embalados em suave melodia,
No clímax do amor, na volúpia quente,
São os nossos ais breve sinfonia.
quinta-feira, 14 de agosto de 2008
Sítios de Lisboa
Quando calha passar pelo Rossio é [quase]devoção entrar na ardida Igreja de S. Domingos. Interior restaurado espectacular, convida à reflexão, ocasionalmente estimulada por um sacerdote culto que fala para os que,por acaso ali passam, numa linguagem filosófica substancial,com menção dos estoicos, como já lhe ouvi.Descrente mas reconfortado saio e vagueio pelo arrepiante Intendente.Ladeio a Capela da Srª da Saúde, lembro Amália, e dou comigo no Largo da Severa, nº2.A lápide «reza» assim:"Nesta casa viveu Maria Severa Onofriana considerada na época a expressão sublime do fado. Faleceu em 30-11-1846 com 26 anos de idade".Evoco o «Fado» de Malhoa e "vejo" o Zé da guitarra com a amante(Adelaide Facada) a seu lado e "ouço" a Amália e penso:como em mim combinam bem o sagrado e o profano!
segunda-feira, 26 de maio de 2008
A matança das minhas recordações
Que eu me lembre, naquele tempo em Brunhoso só eram conhecidas duas matanças : a dos inocentes, de há dois mil anos e a do porco, de agora. Daquela lembrava-se a malvadez de Herodes, esse facíonora degolador de crianças cuja única culpa era terem nascido quando Jesus. A do porco era singular e única, digo-vos. Matavam-se cabritos e canhonos mas não era matança; matar capoeira (patos, pitas perús e coelhos) era rotina. Até na festa de Santa Bárbara se matava uma ou mais vitelas e ninguém celebrava. Mas matar o porco é que era : dia marcado, reboliço em casa logo de manhãzinha, nervosismo e muita agitação nas mulheres, já que os homens, esses, primeiro, ainda vão acomodar as crias. Deixemos os antecedentes : já se sabe que o verdadeiro porco é criado, não mercado. Como se sabe que a criação é trabalho da dona (porque o porco não tem dono), que o faz com não excessiva atenção, é certo, enquanto leitão e larego (é só vê-lo crescer bem e engordar pouco) mas com esmero e cuidado (cabaças, nabos, bolotas e castanhas em abundância p’rá pia) quando for da ceva. Deixemos a decisão de não o capar a quem o quer berrão ou de não a capar a quem quer reprodução compensadora antes de ir ao sacrifício. Deixemos que vagueie com liberdade pelas ruas, que entre por currais e quintais muitas vezes não permitidos («côche, vai p’rá dona, que isto aqui não é teu»), que vá até às eiras na condição de vir pernoitar na loje. Deixêmo-lo, pois, em liberdade, a liberdade ilusória dos condenados. Agora aproxima-se o tempo de Natal, frio, frio a valer, que enrija a pele dos vivos e conserva as carnes frescas estendidas ou penduradas na despensa. Não há frio para o cevado que, anafado e lerdo mas sempre devorador, mal se move à volta da pia abundante, grunhindo ou roncando, insaciável, à espera de mais.
Deixemos, então, o antes e preparemo-nos para a matança, que será no curral, na curralada ou, até mais frequentemente, na rua, que o que é público é de todos. O ritual que vai iniciar-se pede preparação : antes de matar o bicho «mata-se o bicho» : bom carolo de trigo com linguiça e azeitonas, salpicão e presunto do pernil que ainda resta porque guardado para a ocasião, figos secos, aguardente, coisa leve porque um apetitoso prato de molejas não demorará a ser preparado pelas solícitas mulheres da cozinha. Que, coitadas, não param num vai-vem frenético mas descoordenado, topa-aqui, topa-ali, «fuge-me da frente, garoto», mais pelo receio de fracasso do que por exigência das tarefas.
Laçar o animal (corda no focinho) ainda no cortelho, tocá-lo calmamente para não o enervar até ao banco, deitá-lo, segurá-lo com a corda no pescoço, cruzar-lhe as patas trazeiras para, segurando uma, lhe retirar força da outra, exige paciência, jeito, força e, sobretudo, acção coordenada. Três homens bem orientados chegam. (Não demorar muito as operações para não enervar matador e vítima). E, agora, é que vem a arte, a arte de espetar a faca (raros os que usam a navalha) não para matar de imediato mas para o sangrar bem sangrado, que as carnes querem-se limpas de sangue. A mulher apara e mexe sem parar o sangue que escorre aos gorgolhões ao ritmo do estertor do bicho, caindo em barrinhão com algum vinagre para não tralhar logo. E, por fim, a estocada final, o toque no coração, em golpe seguro e certeiro. E o porco «cuim-cuim» e eu aqui a arrepiar-me só de o escrever (mas livra-te de dizer «coitadinho», pode impedir a morte do reco). Mas, enfim, lá o consegui apelando à então para mim normalidade do acto que, depois, já com muita civilização em cima, viria a ouvir pela boca de sabichões que julgam saber tudo do que não sabem nada, ser uma crueldade, praticada por homens pacatos e bons.
O que se segue é o chamusco : palha trilhada para cima, bem regulada para não lhe queimar o couro, facho de colmo a arder e bem firme nas mãos para controladamente chegar às partes menos expostas (orelhas, focinho, sovacos, unhas), água abundante, pequena cortiça a esfregar o chamuscado e navalhas bem afiadas a raspar os pelos que escaparam ao lume. Ali por perto garotos extasiados acompanham, sorridentes e curiosos, o trabalho dos grandes. Já sabem que a sua glória será conseguir meter uma unha do porco no bolso de algum parceiro menos precavido e provocar a risada geral.
E o corpo teso e limpinho do animal ali está, pronto para o matador o abrir. São as tarefas do fazer : faz-se a barbada que traz o unto, faz-se o cu, com vossa licença, que é tarefa para os mais experientes e também deferência («faça favor, sr.Francisco»). Tripas para um cesto de vime, tapadas com toalha de linho verdadeiro, que as mulheres em breve irão para o ribeiro (não há falta na estação) fazer-lhes a limpeza completa. Terminaram os trabalhos, por hoje: sem tripas e sem miudezas o reco irá, em espeto próprio, para a despensa onde, em posição vertical, esperará até amanhã para ser desmanchado. Não terminou, porém, a matança, a não ser que esqueçamos o “jantar”, que inclui fumeiro bem curado do porco do ano passado e miudezas bem temperadas do deste, porque «o dia da matança do porco...é um bom pretexto para convívios e comilanças, que juntam à volta da mesa familiares, amigos e vizinhos, alguns vindos de longe para a festa» (“Festas e Comeres do Povo Português” -de Mª de Lourdes Modesto e Afonso Praça) ;a não ser que esqueçamos a acção de graças final
(«bendito, louvado e adorado seja o SSº Sacramento do altar e a puríssima conceição da sempre Vigem Maria Senhora nossa, Deus que nos deu p’ra hoje que nos dê p’ra sempre e graça para o servir e a benção desta mesa, assim seja» ); a não ser que esqueçamos a suecada final onde, meu Deus, arrenúncias, carvalhadas, arrotos e vinho em abundância completarão a festa que era o dia da matança.
E agora, sim, que a festa acabou, viva a festa, porque estou como o outro que diz «porco morto cevada ao rabo».
Deixemos, então, o antes e preparemo-nos para a matança, que será no curral, na curralada ou, até mais frequentemente, na rua, que o que é público é de todos. O ritual que vai iniciar-se pede preparação : antes de matar o bicho «mata-se o bicho» : bom carolo de trigo com linguiça e azeitonas, salpicão e presunto do pernil que ainda resta porque guardado para a ocasião, figos secos, aguardente, coisa leve porque um apetitoso prato de molejas não demorará a ser preparado pelas solícitas mulheres da cozinha. Que, coitadas, não param num vai-vem frenético mas descoordenado, topa-aqui, topa-ali, «fuge-me da frente, garoto», mais pelo receio de fracasso do que por exigência das tarefas.
Laçar o animal (corda no focinho) ainda no cortelho, tocá-lo calmamente para não o enervar até ao banco, deitá-lo, segurá-lo com a corda no pescoço, cruzar-lhe as patas trazeiras para, segurando uma, lhe retirar força da outra, exige paciência, jeito, força e, sobretudo, acção coordenada. Três homens bem orientados chegam. (Não demorar muito as operações para não enervar matador e vítima). E, agora, é que vem a arte, a arte de espetar a faca (raros os que usam a navalha) não para matar de imediato mas para o sangrar bem sangrado, que as carnes querem-se limpas de sangue. A mulher apara e mexe sem parar o sangue que escorre aos gorgolhões ao ritmo do estertor do bicho, caindo em barrinhão com algum vinagre para não tralhar logo. E, por fim, a estocada final, o toque no coração, em golpe seguro e certeiro. E o porco «cuim-cuim» e eu aqui a arrepiar-me só de o escrever (mas livra-te de dizer «coitadinho», pode impedir a morte do reco). Mas, enfim, lá o consegui apelando à então para mim normalidade do acto que, depois, já com muita civilização em cima, viria a ouvir pela boca de sabichões que julgam saber tudo do que não sabem nada, ser uma crueldade, praticada por homens pacatos e bons.
O que se segue é o chamusco : palha trilhada para cima, bem regulada para não lhe queimar o couro, facho de colmo a arder e bem firme nas mãos para controladamente chegar às partes menos expostas (orelhas, focinho, sovacos, unhas), água abundante, pequena cortiça a esfregar o chamuscado e navalhas bem afiadas a raspar os pelos que escaparam ao lume. Ali por perto garotos extasiados acompanham, sorridentes e curiosos, o trabalho dos grandes. Já sabem que a sua glória será conseguir meter uma unha do porco no bolso de algum parceiro menos precavido e provocar a risada geral.
E o corpo teso e limpinho do animal ali está, pronto para o matador o abrir. São as tarefas do fazer : faz-se a barbada que traz o unto, faz-se o cu, com vossa licença, que é tarefa para os mais experientes e também deferência («faça favor, sr.Francisco»). Tripas para um cesto de vime, tapadas com toalha de linho verdadeiro, que as mulheres em breve irão para o ribeiro (não há falta na estação) fazer-lhes a limpeza completa. Terminaram os trabalhos, por hoje: sem tripas e sem miudezas o reco irá, em espeto próprio, para a despensa onde, em posição vertical, esperará até amanhã para ser desmanchado. Não terminou, porém, a matança, a não ser que esqueçamos o “jantar”, que inclui fumeiro bem curado do porco do ano passado e miudezas bem temperadas do deste, porque «o dia da matança do porco...é um bom pretexto para convívios e comilanças, que juntam à volta da mesa familiares, amigos e vizinhos, alguns vindos de longe para a festa» (“Festas e Comeres do Povo Português” -de Mª de Lourdes Modesto e Afonso Praça) ;a não ser que esqueçamos a acção de graças final
(«bendito, louvado e adorado seja o SSº Sacramento do altar e a puríssima conceição da sempre Vigem Maria Senhora nossa, Deus que nos deu p’ra hoje que nos dê p’ra sempre e graça para o servir e a benção desta mesa, assim seja» ); a não ser que esqueçamos a suecada final onde, meu Deus, arrenúncias, carvalhadas, arrotos e vinho em abundância completarão a festa que era o dia da matança.
E agora, sim, que a festa acabou, viva a festa, porque estou como o outro que diz «porco morto cevada ao rabo».
terça-feira, 20 de maio de 2008
Tendeiros
Naquele tempo eram itinerantes típicos de Brunhoso, tais como tecelões, latoeiros e até triteiros. Já não sou é do tempo dos almocreves. Vinham com a tenda carregada em belos machos, oriundos de Campo de Víboras, o povo chava-lhes camponeses e dizia que eram judéus.
Famoso foi o ti’Derranga. Tinha uma cadelinha muito brava – a «Mil e Um». Um dia, ainda muito cedinho, vinha fazer o negócio e logo à Cruz a cadela atacou um perdigueiro do sr. Júlio Gonçalves e matou-lo.
Boa pessoa como era o Sr. Júlio perdoou-lhe na condição de ir para o povo a gritar : «morra mil e um». Lá foi o Derranga gritando «morra mil e um», «morra mil e um», «morra mil e um»...Ainda não tinha entrado no povo e logo ali à Urreta deparou-se com o Sr. Horácio, pastor do Sr. João Lagoa, a quem morriam sem se saber porquê canhonos velhos e novos. Ao ouvir gritar o Derranga o pastor ralhou-le:
-Ou, Sr.Se quer gritar grite mas é «ouxalá que num morra nium». E o Derranga lá entrou no povo aos gritos «ouxalá que num morra nium», «ouxalá que num morra nium» «ouxalá que num morra nium».....
Mal chegou ali à frente daquela curralada que é do sr. Aragão estava o sr. Alfredo Neto a matar um porco ao sr. Antoninho Felgueiras. Pândego como era o sr. Alfredo berrou, cheio de risa, para o Derranga:
-Ó home de Deus, mude a gaita e bote-le mas é: «com saúde o comam marido e mulher». Meu dito, meu feito e o Derranga: «com saúde o comam marido e mulher», «com saúde o comam marido e mulher», «com saúde o comam marido e mulher».....
Desceu ali por aquela canelha que ainda lá está, e num dos quintais ao lado donde está o bebedouro, que era da minha madrinha, a srª Marquinhas Ruela, atrás duma parede estava o sr. Tibério a arrear o calhau. Ofendido, grita-lhe com a sua típica voz fininha:
-Seu malvado, o que vocemecê deve gritar é mas é: «as pitas o ranhem e os porcos o focem». Lá seguiu o Derranga... «as pitas o ranhem e os porcos o focem», «as pitas o ranhem e os porcos o focem», «as pitas o ranhem e os porcos o focem»...Logo ali ao lado, no Pereiro, estava um moço do sr. Antoninho Acácio, o Chico Césaro, a fazer uma sementeira de ferranha. Calculem lá como o rapaz não ficou. Cada vez mais desesperado o ti’Derranga:
-Já num sei o q’hei-de dezer!
-Olhe, carai, diga «ouxalá c’arrebente todo»
E o Derranga «ouxalá c’arrebente todo», «ouxalá c’arrebente todo», «ouxalá c’arrebente todo». Virou p’rós lados do Fundão e, frente à taberna da srª Maria Cecília, estavam uns homens a descarregar um pipo de vinho que, com um estremeção, tinha arrombado uma greta por onde estava a esvaziar.
-Ó home, já s’arramou c’abonde, grite lá «ouxalá que num saia nium». E a gritar «ouxalá que num saia nium», «ouxalá que num saia nium», «ouxalá que num saia nium» passou frente ao adro onde estava o sr. Martinho Capador a capar um berrão à srª Maria dos Anjos. Engraçado como era o sr. Martinho às gargalhadas mandou-o gritar «ouxalá que saiam os dois». E o Derranga obedecendo : «ouxalá que saiam os dois», «ouxalá que saiam os dois», «ouxalá que saiam os dois». Já mais que desorientado chega às Eiras de Cima onde enfrenta o ti’ Sidré a correr atrás de um dos porcos que lhe tinha fugido pela tampa do cortelho. Como não era para brincadeiras gritou-lhe: vá p’ró rai que o parta mas é a gritar «ouxalá que não saia p’la tampa». Em fim de desespero o Derranga entra ali ao lado no Cemitério com as forças que lhe restavam «ouxalá que não saia p’la tampa», «ouxalá que não saia p’la tampa», «ouxalá que não saia p’la tampa». Estava o sr.Chico Lindo a enterrar um morto. Levanta a cabeça, olham por instantes um para o outro, dão ambos uma gargalhada e abraçam-se.
«E ainda lá estão assim» - concluia muito a sério a minha avó Luisa – a srª Luisa Carpinteira – que, com aquela argúcia de analfabeta me contou esta história “verdadeira” (porque para mim naquela idade a fantasia valia mais que a realidade) faz hoje precisamente 65 anos 4 meses e 22 dias. Foi a sua conclusão que incutiu em mim um misto de respeito-mistério pelo cemitério de Brunhoso, que perdura.
Agora digam lá que os nossos antigos não tinham imaginação...
[dos olmos]
Naquele tempo eram itinerantes típicos de Brunhoso, tais como tecelões, latoeiros e até triteiros. Já não sou é do tempo dos almocreves. Vinham com a tenda carregada em belos machos, oriundos de Campo de Víboras, o povo chava-lhes camponeses e dizia que eram judéus.
Famoso foi o ti’Derranga. Tinha uma cadelinha muito brava – a «Mil e Um». Um dia, ainda muito cedinho, vinha fazer o negócio e logo à Cruz a cadela atacou um perdigueiro do sr. Júlio Gonçalves e matou-lo.
Boa pessoa como era o Sr. Júlio perdoou-lhe na condição de ir para o povo a gritar : «morra mil e um». Lá foi o Derranga gritando «morra mil e um», «morra mil e um», «morra mil e um»...Ainda não tinha entrado no povo e logo ali à Urreta deparou-se com o Sr. Horácio, pastor do Sr. João Lagoa, a quem morriam sem se saber porquê canhonos velhos e novos. Ao ouvir gritar o Derranga o pastor ralhou-le:
-Ou, Sr.Se quer gritar grite mas é «ouxalá que num morra nium». E o Derranga lá entrou no povo aos gritos «ouxalá que num morra nium», «ouxalá que num morra nium» «ouxalá que num morra nium».....
Mal chegou ali à frente daquela curralada que é do sr. Aragão estava o sr. Alfredo Neto a matar um porco ao sr. Antoninho Felgueiras. Pândego como era o sr. Alfredo berrou, cheio de risa, para o Derranga:
-Ó home de Deus, mude a gaita e bote-le mas é: «com saúde o comam marido e mulher». Meu dito, meu feito e o Derranga: «com saúde o comam marido e mulher», «com saúde o comam marido e mulher», «com saúde o comam marido e mulher».....
Desceu ali por aquela canelha que ainda lá está, e num dos quintais ao lado donde está o bebedouro, que era da minha madrinha, a srª Marquinhas Ruela, atrás duma parede estava o sr. Tibério a arrear o calhau. Ofendido, grita-lhe com a sua típica voz fininha:
-Seu malvado, o que vocemecê deve gritar é mas é: «as pitas o ranhem e os porcos o focem». Lá seguiu o Derranga... «as pitas o ranhem e os porcos o focem», «as pitas o ranhem e os porcos o focem», «as pitas o ranhem e os porcos o focem»...Logo ali ao lado, no Pereiro, estava um moço do sr. Antoninho Acácio, o Chico Césaro, a fazer uma sementeira de ferranha. Calculem lá como o rapaz não ficou. Cada vez mais desesperado o ti’Derranga:
-Já num sei o q’hei-de dezer!
-Olhe, carai, diga «ouxalá c’arrebente todo»
E o Derranga «ouxalá c’arrebente todo», «ouxalá c’arrebente todo», «ouxalá c’arrebente todo». Virou p’rós lados do Fundão e, frente à taberna da srª Maria Cecília, estavam uns homens a descarregar um pipo de vinho que, com um estremeção, tinha arrombado uma greta por onde estava a esvaziar.
-Ó home, já s’arramou c’abonde, grite lá «ouxalá que num saia nium». E a gritar «ouxalá que num saia nium», «ouxalá que num saia nium», «ouxalá que num saia nium» passou frente ao adro onde estava o sr. Martinho Capador a capar um berrão à srª Maria dos Anjos. Engraçado como era o sr. Martinho às gargalhadas mandou-o gritar «ouxalá que saiam os dois». E o Derranga obedecendo : «ouxalá que saiam os dois», «ouxalá que saiam os dois», «ouxalá que saiam os dois». Já mais que desorientado chega às Eiras de Cima onde enfrenta o ti’ Sidré a correr atrás de um dos porcos que lhe tinha fugido pela tampa do cortelho. Como não era para brincadeiras gritou-lhe: vá p’ró rai que o parta mas é a gritar «ouxalá que não saia p’la tampa». Em fim de desespero o Derranga entra ali ao lado no Cemitério com as forças que lhe restavam «ouxalá que não saia p’la tampa», «ouxalá que não saia p’la tampa», «ouxalá que não saia p’la tampa». Estava o sr.Chico Lindo a enterrar um morto. Levanta a cabeça, olham por instantes um para o outro, dão ambos uma gargalhada e abraçam-se.
«E ainda lá estão assim» - concluia muito a sério a minha avó Luisa – a srª Luisa Carpinteira – que, com aquela argúcia de analfabeta me contou esta história “verdadeira” (porque para mim naquela idade a fantasia valia mais que a realidade) faz hoje precisamente 65 anos 4 meses e 22 dias. Foi a sua conclusão que incutiu em mim um misto de respeito-mistério pelo cemitério de Brunhoso, que perdura.
Agora digam lá que os nossos antigos não tinham imaginação...
[dos olmos]
sexta-feira, 16 de maio de 2008
O meu Amigo Rui Fonseca escreveu no seu blog «aliás» condenando os Ministros que fumaram no avião para Caracas, o que foi multado por excesso de velocidade eo presidente da ASAE por ter fumado no Casino.
É interessante o relacionamento entre a lei promulgada, o seu (in)cumprimento e a ética. Apesar de a lei ser uma superestrutura (Marx dixit) é suposto estar ao seviço (bem) da comunidade, que são todos os que, voluntária ou involuntàriamente, a aceitam. O seu cumprimento é, porém, mais da esfera do cívico do que do ético (discordo da obrigatoriedade do uso do cinto no automóvel mas uso-o para fugir à multa). Já o maior legislador grego, Sólon, falava em leis iníquas. A prova do carácter cívico da lei é a penalização pelo incumprimento. Assim, tão cívico será cumprir a lei como pagar pelo seu incumprimento. É o carácter cívico da lei que lhe confere o atributo da generalização. Teoricamente "nenhuma regra tem excepção". Quando Ministros ultrapassam a velocidade permitida por lei ou fumam em locais proibidos estão ne mesma situação que qualquer outro cidadão. Não é a posição social que torna a infracção à lei mais ou menos condenável, porque não é a posição social que confere mais ou menos obrigatoriedade de cumprimento. O carácter da lei é ser geral. Discordo, em absoluto, da maior ou menor gravidade do incumprimento de acordo com a posição social. Assim, os Ministros - primeiros ou segundos - não são mais nem menos criticáveis pelo incumprimento. Do ponto de vista político considero uma enorme desproporção o relevo que a comunicação social dá a essas prevaricações (já nem falo do aproveitamento político dos partidos). Condenável é - do meu ponto de vista -andar à procura de excepções caricatas, do tipo advogado de defesa, como a de que o avião era fretado ou de que a legislação para Casinos é especial . Argumentar que os políticos têm de dar o exemplo - como me diz a minha filha - é falácia, porque o exemplo todos temos que dar (aos subordinados, colegas, alunos, filhos...).
É interessante o relacionamento entre a lei promulgada, o seu (in)cumprimento e a ética. Apesar de a lei ser uma superestrutura (Marx dixit) é suposto estar ao seviço (bem) da comunidade, que são todos os que, voluntária ou involuntàriamente, a aceitam. O seu cumprimento é, porém, mais da esfera do cívico do que do ético (discordo da obrigatoriedade do uso do cinto no automóvel mas uso-o para fugir à multa). Já o maior legislador grego, Sólon, falava em leis iníquas. A prova do carácter cívico da lei é a penalização pelo incumprimento. Assim, tão cívico será cumprir a lei como pagar pelo seu incumprimento. É o carácter cívico da lei que lhe confere o atributo da generalização. Teoricamente "nenhuma regra tem excepção". Quando Ministros ultrapassam a velocidade permitida por lei ou fumam em locais proibidos estão ne mesma situação que qualquer outro cidadão. Não é a posição social que torna a infracção à lei mais ou menos condenável, porque não é a posição social que confere mais ou menos obrigatoriedade de cumprimento. O carácter da lei é ser geral. Discordo, em absoluto, da maior ou menor gravidade do incumprimento de acordo com a posição social. Assim, os Ministros - primeiros ou segundos - não são mais nem menos criticáveis pelo incumprimento. Do ponto de vista político considero uma enorme desproporção o relevo que a comunicação social dá a essas prevaricações (já nem falo do aproveitamento político dos partidos). Condenável é - do meu ponto de vista -andar à procura de excepções caricatas, do tipo advogado de defesa, como a de que o avião era fretado ou de que a legislação para Casinos é especial . Argumentar que os políticos têm de dar o exemplo - como me diz a minha filha - é falácia, porque o exemplo todos temos que dar (aos subordinados, colegas, alunos, filhos...).
terça-feira, 15 de abril de 2008
Vinicius de Moraes
Oiço, com prazer sempre renovado, O DIA DA CRIAÇÃO, de Vinícius de Moraes, dito pelo próprio na casa de Amália Rodrigues, em serão memorável com as presenças notáveis de David Mourão-Ferreira, Natália Correia, Ary dos Santos.Que maravilha!
[«Macho e fêmea os criou»Genesis, 1, 27]
Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.
Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.
Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado
Hoje há um divórcio e um violamentoPorque hoje é sábado
Há um rico que se mata
Porque hoje é sábado
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado
Há um grande espírito-de-porco
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado
Há criançinhas que não comem
Porque hoje é sábado
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado
Há uma comemoração fantástica
Porque hoje é sábado
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado
Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, o Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra;
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário.
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias.
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos.
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia.
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia.
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias.
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos;
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade.
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo...
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente,
Porque era sábado.
[«Macho e fêmea os criou»Genesis, 1, 27]
Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.
Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.
Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado
Hoje há um divórcio e um violamentoPorque hoje é sábado
Há um rico que se mata
Porque hoje é sábado
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado
Há um grande espírito-de-porco
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado
Há criançinhas que não comem
Porque hoje é sábado
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado
Há uma comemoração fantástica
Porque hoje é sábado
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado
Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, o Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra;
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário.
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias.
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos.
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia.
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia.
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias.
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos;
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade.
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo...
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente,
Porque era sábado.
quinta-feira, 10 de abril de 2008
A las cinco de la tarde
Um dos poemas mais belos, que o meu saudoso Mestre Padre Manuel Antunes me ensinou a apreciar, é este do infeliz Federico Garcia Lorca, vitimizado pelo franquismo:
“LA COGIDA Y LA MUERTE “- 1ª parte do «Llanto por Ignacio Sanches Mejías»
A las cinco de la tarde.
Eran las cinco en punto de la tarde.
Un niño trajo la blanca sábana
a las cinco de la tarde.
Una espuerta de cal ya prevenida
a las cinco da la tarde.
Lo demás era muerte y sólo muerte
a las cinco de la tarde.
El viento se llevó los algodones
a las cinco de la tarde.
Y el óxido sembró cristal y níquel
a las cinco de la tarde.
Ya luchan la paloma y el leopardo
a las cinco de la tarde.
Y un muslo con un asta desolada
a las cinco de la tarde.
Comenzaron los sones del bordón
a las cinco de la tarde.
Las campanas de arsénico y el humo
a las cinco de la tarde.
En las esquinas grupos de silencio
a las cinco de la tarde.
¡Y el toro solo corazón arriba!
a las cinco de la tarde.
Cuando el sudor de nieve fue llegando
a las cinco de la tarde,
Cuando la plaza se cubrió de yodo
a las cinco de la tarde,
la muerte puso huevos en la herida
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
A las cinco en punto de la tarde.
Un ataúd con ruelas es la cama
a las cinco de la tarde.
Huesos y flautas suenan en su oídeo
a las cinco de la tarde.
El toro ya mugía por su frente
a las cinco de la tarde.
El quarto se irisaba de agonía
a las cinco de la tarde.
A los lejos ya viene la gangrena
a las cinco de la tarde.
Trompa de lirio por las verdes ingles
a las cinco de la tarde,
Las heridas quemaban como soles
a las cinco de la tarde,
y el gentío rompía las ventanas
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
¡Ay qué terribles cinco de la tarde!
¡Eran las cinco en todos los relojes!
¡Eran las cinco en sombra de la tarde!
“LA COGIDA Y LA MUERTE “- 1ª parte do «Llanto por Ignacio Sanches Mejías»
A las cinco de la tarde.
Eran las cinco en punto de la tarde.
Un niño trajo la blanca sábana
a las cinco de la tarde.
Una espuerta de cal ya prevenida
a las cinco da la tarde.
Lo demás era muerte y sólo muerte
a las cinco de la tarde.
El viento se llevó los algodones
a las cinco de la tarde.
Y el óxido sembró cristal y níquel
a las cinco de la tarde.
Ya luchan la paloma y el leopardo
a las cinco de la tarde.
Y un muslo con un asta desolada
a las cinco de la tarde.
Comenzaron los sones del bordón
a las cinco de la tarde.
Las campanas de arsénico y el humo
a las cinco de la tarde.
En las esquinas grupos de silencio
a las cinco de la tarde.
¡Y el toro solo corazón arriba!
a las cinco de la tarde.
Cuando el sudor de nieve fue llegando
a las cinco de la tarde,
Cuando la plaza se cubrió de yodo
a las cinco de la tarde,
la muerte puso huevos en la herida
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
A las cinco en punto de la tarde.
Un ataúd con ruelas es la cama
a las cinco de la tarde.
Huesos y flautas suenan en su oídeo
a las cinco de la tarde.
El toro ya mugía por su frente
a las cinco de la tarde.
El quarto se irisaba de agonía
a las cinco de la tarde.
A los lejos ya viene la gangrena
a las cinco de la tarde.
Trompa de lirio por las verdes ingles
a las cinco de la tarde,
Las heridas quemaban como soles
a las cinco de la tarde,
y el gentío rompía las ventanas
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
¡Ay qué terribles cinco de la tarde!
¡Eran las cinco en todos los relojes!
¡Eran las cinco en sombra de la tarde!
quarta-feira, 9 de abril de 2008
Grafitos
Não sei porquê abundam de novo as inscrições nas paredes dos prédios de Lisboa. Sou contra mas deve ser da idade. Há 30 anos eram mensagens mais ou menos revolucionárias ou convocatórias. Lembro duas das muitas
Greve geral – 1º de Maio
Greve geral – Todos os dias
1º de Maio – dia do trabalhador
1º de Maio – o orgulho de ser escravo
As de agora ou não trazem mensagem ou são esotéricas.
Greve geral – 1º de Maio
Greve geral – Todos os dias
1º de Maio – dia do trabalhador
1º de Maio – o orgulho de ser escravo
As de agora ou não trazem mensagem ou são esotéricas.
quarta-feira, 2 de abril de 2008
domingo, 30 de março de 2008
escolhas da treta
É dia de ver «as escolhas de Marcelo». Mais do que interesse é vício. Lá verei Maria da Flor Pedroso a fazer reverentemente de “yes, wooman” e pouco mais e a apoucar-se com um muitas vezes repetido “professor”. Professor que, para mim ainda é o que ensina, não o que opina. «Os meus comentários são sempre tendencialmente favoráveis ao PSD, mesmo quando não parecem» (durante uma aula aos militantes da secção D do PSD Lisboa – Expresso 21 de Março de 2008).
Perante isto que autoridade tem MRS para ridicularizar Jorge Coelho por, sendo comentador no “Quadratura do Círculo”, intervir num encontro de PS,s? E que independência nos garante nos seus comentários? Ó Professor, pelo menos poupe-nos à petulância das notas. Os seus ouvintes já tiveram muitas oportunidades de as receber (e, no meu caso, de as dar) em contextos mais adequados. E modere-se no ritmo (se isso lhe é possível). É que, se chamaram “picareta falante” ao A. Guterres então MRS deveria ser qualquer coisa como “metralha falante”.
Perante isto que autoridade tem MRS para ridicularizar Jorge Coelho por, sendo comentador no “Quadratura do Círculo”, intervir num encontro de PS,s? E que independência nos garante nos seus comentários? Ó Professor, pelo menos poupe-nos à petulância das notas. Os seus ouvintes já tiveram muitas oportunidades de as receber (e, no meu caso, de as dar) em contextos mais adequados. E modere-se no ritmo (se isso lhe é possível). É que, se chamaram “picareta falante” ao A. Guterres então MRS deveria ser qualquer coisa como “metralha falante”.
domingo, 23 de março de 2008
Acabo de ler «O Lago Azul» (Fernando Campos). História linear construída a partir das infelicidades de D. António Prior do Crato, breve e infeliz rei de Portugal, e descendentes. Que encanto de literatura! Que suavidade narrativa (o Vento nem mesmo nos momentos de tragédia chega a ser ciclone )! Que autêntica cultura! E também que sageza! Na genérica pífia literatura portuguesa moderna que bálsamo para aqueles que procuram nas letras portuguesas o verdadeiro vernáculo moderno! Eia! Sus! Jovens aprendizes de escritor, apreciem e imitem o trabalho de pesquisa que o A. fez para produzir esta pequena mas valiosa pérola da nossa literatura.
Hoje satisfiz o meu gosto pela culinária e cozinhei para a Família
Cordeiro à minha maneira (4 pessoas)
Corta-se 1,5kg de cordeio (borrego, anho) em pedaços pequenos e limpam-se muito bem de toda a gordura. No fundo do tacho põe-se um ramo de louro e água a cobrir). Quando estiver a ferver botam-se lá para dentro os pedaços de cordeiro. Enquanto ferve(20’)
vai-se tirando o bedum com a espumadeira até a água ficar completamente clara. É altura de introduzir os tempêros: vinho branco (0,5 l), 12 dentes de alho, bastante azeite (se for virgem melhor), uma colher de chá de piripiri (malagueta, gindungo, guinda) e sal qb. Por cima as batatas (cortadas em pedaços granditos). Quando estas estiverem cozidas colocar um ramo de hortelã por cima, tapar e desligar. Cobre-se o fundo do prato com fatias de pão (durinho ou torrado) e o caldo a seu gosto. Acompanhar com salada (azedas, cunqueiros, agriões, rabaças ou, não havendo, chicória ou mesmo alface). O vinho deve ser tinto e graduado (14 ou 15º) mas convém não exagerar.
Em tempo : é um privilégio o borrego ter sido criado na Viladala.
Cordeiro à minha maneira (4 pessoas)
Corta-se 1,5kg de cordeio (borrego, anho) em pedaços pequenos e limpam-se muito bem de toda a gordura. No fundo do tacho põe-se um ramo de louro e água a cobrir). Quando estiver a ferver botam-se lá para dentro os pedaços de cordeiro. Enquanto ferve(20’)
vai-se tirando o bedum com a espumadeira até a água ficar completamente clara. É altura de introduzir os tempêros: vinho branco (0,5 l), 12 dentes de alho, bastante azeite (se for virgem melhor), uma colher de chá de piripiri (malagueta, gindungo, guinda) e sal qb. Por cima as batatas (cortadas em pedaços granditos). Quando estas estiverem cozidas colocar um ramo de hortelã por cima, tapar e desligar. Cobre-se o fundo do prato com fatias de pão (durinho ou torrado) e o caldo a seu gosto. Acompanhar com salada (azedas, cunqueiros, agriões, rabaças ou, não havendo, chicória ou mesmo alface). O vinho deve ser tinto e graduado (14 ou 15º) mas convém não exagerar.
Em tempo : é um privilégio o borrego ter sido criado na Viladala.
sexta-feira, 21 de março de 2008
Como de costume, e com o costumado prazer,passeio pela Frederico Arouca, Cascais.Desta vez desvio ocasional pela Rua da Saudade. Surpresa! No nº 13 lápide «Mircea Eliade,Bucarest,9-3-1907,Chicago,22-4-1986.Escritor.Viveu nesta casa.15 de Outubro de 2001».Impulso: ir para casa e reler «O sagrado e o profano - a essência das religiões»[Ed. Livros do Brasil, trad. de Rogério Fernandes].
Da badana :«Obra mundialmente considerada,«O sagrado e o profano...permite-nos verificar que o sagrado e o profano constituem duas modalidades de ser no mundo, duas situações existenciais assumidas pelo homem ao longo da sua história...Em última instância, os modos de ser sagrado e profano dependem das diferentes posições que o homem conquistou no cosmos e, por consequência, interessam não só ao filósofo mas também a todo o investigador desejoso de conhecer as dimensões possíveis da existência humana».
Da badana :«Obra mundialmente considerada,«O sagrado e o profano...permite-nos verificar que o sagrado e o profano constituem duas modalidades de ser no mundo, duas situações existenciais assumidas pelo homem ao longo da sua história...Em última instância, os modos de ser sagrado e profano dependem das diferentes posições que o homem conquistou no cosmos e, por consequência, interessam não só ao filósofo mas também a todo o investigador desejoso de conhecer as dimensões possíveis da existência humana».
quinta-feira, 20 de março de 2008
A «Sábado» desta semana (nº 203) traz uma investigação exclusiva sobre «os negócios milionários da Igreja em Portugal». Curiosamente são os Salesianos os mais evidenciados:
-5 milhões de € num loteamento em Vendas Novas
-Terreno em Braga – 1,5 milhões
-Piscina coberta em Manique – 3 milhões.
O pobre do D. Bosco deve estar às voltas no túmulo.
A Confraria do Sameiro tem um investimento de 4,5 milhões em construção de albergaria (com restaurante, spa, duas piscinas aquecidas, jacuzi, banho turco, massagens, ginásio e solário). Em turismo religioso a diocese de Braga recolhe 500 milhões por ano. No Santuário do Bom Jesus há 3 «hotéis sagrados». Tem quintas e 20 edifícios em Guimarães.
O patriarcado de Lisboa possui a urbanização Jardins de Cristo Rei com 228 metros quadrados que vale 5 milhões para além de uma propriedade de 8 hectares para construção. O anterior Cardeal (D. António Ribeiro) deixou ao sucessor (D. José Policarpo) 5 milhões. Os consultores financeiros são de peso - Lobo Xavier e Jardim Gonçalves.
Santuário de Fátima : as receitas são tão elevadas(17,2 milhões em 2005) que deixaram de divulgá-las como protesto contra a obrigação de descontar 20% de IRC sobre os juros dos depósitos. A nova Igreja da Santíssima Trindade custou 70 milhões e – pasme-se !– foi paga sem recurso a crédito.
Em síntese, conclui o artigo :«o património global da Igreja portuguesa impressiona : terá mais de 20 mil edifícios entre santuários, igrejas, capelas seminários, templos e museus».
Aix, cada vez sou mais admirador de Cristo.
-5 milhões de € num loteamento em Vendas Novas
-Terreno em Braga – 1,5 milhões
-Piscina coberta em Manique – 3 milhões.
O pobre do D. Bosco deve estar às voltas no túmulo.
A Confraria do Sameiro tem um investimento de 4,5 milhões em construção de albergaria (com restaurante, spa, duas piscinas aquecidas, jacuzi, banho turco, massagens, ginásio e solário). Em turismo religioso a diocese de Braga recolhe 500 milhões por ano. No Santuário do Bom Jesus há 3 «hotéis sagrados». Tem quintas e 20 edifícios em Guimarães.
O patriarcado de Lisboa possui a urbanização Jardins de Cristo Rei com 228 metros quadrados que vale 5 milhões para além de uma propriedade de 8 hectares para construção. O anterior Cardeal (D. António Ribeiro) deixou ao sucessor (D. José Policarpo) 5 milhões. Os consultores financeiros são de peso - Lobo Xavier e Jardim Gonçalves.
Santuário de Fátima : as receitas são tão elevadas(17,2 milhões em 2005) que deixaram de divulgá-las como protesto contra a obrigação de descontar 20% de IRC sobre os juros dos depósitos. A nova Igreja da Santíssima Trindade custou 70 milhões e – pasme-se !– foi paga sem recurso a crédito.
Em síntese, conclui o artigo :«o património global da Igreja portuguesa impressiona : terá mais de 20 mil edifícios entre santuários, igrejas, capelas seminários, templos e museus».
Aix, cada vez sou mais admirador de Cristo.
quarta-feira, 12 de março de 2008
domingo, 2 de março de 2008
o burro
O burro é um animal doméstico porque vive com o homem. O burro dá-nos o estrume que serve para adubar as hortas, dá-nos os ossos que servem para fazer pentes e dá-nos a força que serve para acarretar tudo o que cá se cultiva : centeio, cevada, ferranha, milho, batatas e nabiças e até é capaz de trazer da ladeira sacos de amêndoa e de azeitona que vai logo para as tulhas do lagar dos Benignos. O burro também serve para levar a gente para a feira na Vila, mas aí vai todo enfeitado com albarda nova com tapete e alforjas bordadas e cabresto próprio. Até parece que vai para a festa. Mas não é boa educação a mulher ir escarranchada ou ir à frente do homem, podem dizer que vai roubada. Alguns ricos têm cavalo mas os que vão de burro também vão a cavalo. Dá na mesma e os burros até são mais mansos. Por isso os sentenças dizem mais quero burro que me leve do que cavalo que me derrube. Os alfaiates dos burros são os albardeiros que na nossa terra são muito importantes porque há cá muitos burros. A professora ensinou-nos que burro é um substantivo comum e regular pois o feminino é burra ao contrário do feminino de boi que não é boia e de carneiro que não é carneira e de cavalo que não é cavala e de galo que não é gala e de cão que não é cã e de chibo que não é chiba. Os burros são animais educados, um dia ouvi o meu pai dizer para o tio João quando um burro zurna o outro amoucha as orelhas, isto para o meu tio não o interromper, mas são amigos. Agora quem já não gosta tanto de burros é o
Silvestre, desde que por causa do ditado apanhou três reguadas em cada mão, coitado. Também quem é que o mandou escrever burra com ó. Mesmo assim no recreio ainda brincamos aos burros. Uma é assim, diz depressa aqui jaz o rei e a outra é os da 4ª classe a perguntarem qual é a 1ª pessoa do singular do presente do indicativo do verbo zurnar. Alguns caem nela. Os burros quando são novos não são burros, agora já se sabe que burro velho não toma andadura.Também nessa idade não sei para que é que a quereria. Os ciganos sabem a idade dos burros pelos dentes e se não se enganam enganam mas os aldeanos já estão de pé atrás com eles, mas isso é só para comprar e vender porque se for burro dado não se lhe olha o dente. Há uma data de dias especiais, da Mãe, do Pai, dos namorados, da feira, da festa, o dia de são nunca à tarde que quando então o meu pai diz que me vai dar a burrica e assim mas dos burros ainda há mais, há um mês que é o que aí vem. Nesse mês juntam-se nas eiras do Prado muitos burros e burras a brincar mas as mães não querem que os vamos ver porque dizem que fazem coisas feias mas nós vamos às escondidas. Os burros não são burros as portas e os socos é que sim. Porque ao contrário do nome o burro é inteligente, a nossa senhora catequista ensinou-nos que está na Bíblia que uma burra até falou, até nos disse o nome do dono mas eu não me lembro, desculpe, e outro burro pensou tanto que até morreu a pensar. Os burros são educados e não gritam, por isso é que as suas vozes não chegam ao céu que está muito longe. E o burro também serve para dar conselhos e fazer recomendações como esta tu não sejas burro ou esta pensavas que era só chegar à burra e tirar-lhe um figo? O burro é um animal valente que se aguenta bem, pois só com três ao burro e o burro no chão. Por causa de um burro eu um dia fiquei todo embufado quando me disseram que o meu irmão tinha uma burra e eu também queria. Por fim ainda se riram de mim porque a burra era na mão. Há dias quando a minha avó mudava os lençóis espreitei vinte mil reis no colchão mas ela logo me disse que se fosse rica os metia na burra, adonde não sei. Os burros em pequeninos são muito lindos mas quando o Artúrio me chamou Chico burrico eu enraivei-me e escondi-lhe o regrão. Há pessoas que se aproveitam dos burros para serem mal-criadas. Um dia a Alice disse à Celeste foi a burra da tua tia referindo-se à tia e não à burra. Agora espero que a professora não me chame cabeça de burro por já ter escrito 47 vezes a palavra burro, fora esta e a que vem a seguir. Vai ser bonito, vai. Porí não me leva a exame mas a minha mãe já lhe prometeu um queijo de ovelha curado. Por tudo isto eu gosto muito do burro. Fim.
Silvestre, desde que por causa do ditado apanhou três reguadas em cada mão, coitado. Também quem é que o mandou escrever burra com ó. Mesmo assim no recreio ainda brincamos aos burros. Uma é assim, diz depressa aqui jaz o rei e a outra é os da 4ª classe a perguntarem qual é a 1ª pessoa do singular do presente do indicativo do verbo zurnar. Alguns caem nela. Os burros quando são novos não são burros, agora já se sabe que burro velho não toma andadura.Também nessa idade não sei para que é que a quereria. Os ciganos sabem a idade dos burros pelos dentes e se não se enganam enganam mas os aldeanos já estão de pé atrás com eles, mas isso é só para comprar e vender porque se for burro dado não se lhe olha o dente. Há uma data de dias especiais, da Mãe, do Pai, dos namorados, da feira, da festa, o dia de são nunca à tarde que quando então o meu pai diz que me vai dar a burrica e assim mas dos burros ainda há mais, há um mês que é o que aí vem. Nesse mês juntam-se nas eiras do Prado muitos burros e burras a brincar mas as mães não querem que os vamos ver porque dizem que fazem coisas feias mas nós vamos às escondidas. Os burros não são burros as portas e os socos é que sim. Porque ao contrário do nome o burro é inteligente, a nossa senhora catequista ensinou-nos que está na Bíblia que uma burra até falou, até nos disse o nome do dono mas eu não me lembro, desculpe, e outro burro pensou tanto que até morreu a pensar. Os burros são educados e não gritam, por isso é que as suas vozes não chegam ao céu que está muito longe. E o burro também serve para dar conselhos e fazer recomendações como esta tu não sejas burro ou esta pensavas que era só chegar à burra e tirar-lhe um figo? O burro é um animal valente que se aguenta bem, pois só com três ao burro e o burro no chão. Por causa de um burro eu um dia fiquei todo embufado quando me disseram que o meu irmão tinha uma burra e eu também queria. Por fim ainda se riram de mim porque a burra era na mão. Há dias quando a minha avó mudava os lençóis espreitei vinte mil reis no colchão mas ela logo me disse que se fosse rica os metia na burra, adonde não sei. Os burros em pequeninos são muito lindos mas quando o Artúrio me chamou Chico burrico eu enraivei-me e escondi-lhe o regrão. Há pessoas que se aproveitam dos burros para serem mal-criadas. Um dia a Alice disse à Celeste foi a burra da tua tia referindo-se à tia e não à burra. Agora espero que a professora não me chame cabeça de burro por já ter escrito 47 vezes a palavra burro, fora esta e a que vem a seguir. Vai ser bonito, vai. Porí não me leva a exame mas a minha mãe já lhe prometeu um queijo de ovelha curado. Por tudo isto eu gosto muito do burro. Fim.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
Debates
Acabo de assistir, no programa «prós e contras» ao debate(?) sobre o estado da educação em Portugal. Aix, que tristeza! Logo me veio à mente aquela do A. O'Neil:
E se fôssemos rir,
Rir de tudo tanto
Que, à força de rir,
O riso se tornasse pranto?
E se fôssemos rir,
Rir de tudo tanto
Que, à força de rir,
O riso se tornasse pranto?
Anti-epitáfio
Belas frases em campa rasa e fria
Não escondem o vazio da eternidade;
Não há crença onde a única verdade
É a certeza de não voltar um dia.
Nem é coragem, nem fraqueza ou rebeldia
Não querer epitáfio de saudade;
Há-de haver quem exalte a liberdade
De dar ao corpo o destino que queria.
Se alguém fizer frases, que vão fora ;
Se mereço uma memória do passado
O meu último pedido faço agora:
Não querendo imaginar-me assim prostrado,
Prefiro ser lembrado a toda a hora
Como alguém que optou por ser cremado.
Belas frases em campa rasa e fria
Não escondem o vazio da eternidade;
Não há crença onde a única verdade
É a certeza de não voltar um dia.
Nem é coragem, nem fraqueza ou rebeldia
Não querer epitáfio de saudade;
Há-de haver quem exalte a liberdade
De dar ao corpo o destino que queria.
Se alguém fizer frases, que vão fora ;
Se mereço uma memória do passado
O meu último pedido faço agora:
Não querendo imaginar-me assim prostrado,
Prefiro ser lembrado a toda a hora
Como alguém que optou por ser cremado.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
Há dias assim
1-Livros : a tabuleta pode ser (não é) muito chamativa : «Byblos, livrarias», mas aquele interior...É um espaço anunciado de 3.300m2, bem estruturado para que os clientes vejam, manuseiem e, se quiserem, saboreiem os livros que superabundam nas ofertas temáticas mais variadas. O dístico apenso à parede convida ao relaxe: «sempre imaginei que o Paraiso fosse uma espécie de livraria»(Jorge Luís Borges).Clientes? Onde estão eles? Ali ao lado, no CC Amoreiras, acotovelam-se. Aqui escasseiam. Pensamos grande, agimos pequeno.
2-No debate «a regra do jogo» (SIC) ouço e vejo o JM Júdice a defender Sócrates e o Governo e o António Barreto a criticá-los. Aix! Ao que isto chegou!
2-No debate «a regra do jogo» (SIC) ouço e vejo o JM Júdice a defender Sócrates e o Governo e o António Barreto a criticá-los. Aix! Ao que isto chegou!
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008
Assinaturas
«Telmo Correia assinou 300 despachos na madrugada da tomada de posse de Sócrates» [Público - 3.2.08]
Aix, o sr. é despachado!
Aix, o sr. é despachado!
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
pormenores
Os milhões que receberam para sair:
Jardim Gonçalves - recebeu cerca de € 28 milhões
Teixeira Pinto - recebeu cerca de € 10 milhões
Horta e Costa - recebeu cerca de € 2,4 milhões
Miguel Cadilhe - recebeu cerca de € 1,75 milhões
[SÁBADO,31 de Janeiro].
Aix, que sim serão de ricos!
Jardim Gonçalves - recebeu cerca de € 28 milhões
Teixeira Pinto - recebeu cerca de € 10 milhões
Horta e Costa - recebeu cerca de € 2,4 milhões
Miguel Cadilhe - recebeu cerca de € 1,75 milhões
[SÁBADO,31 de Janeiro].
Aix, que sim serão de ricos!
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
Respondendo a um pedido singular,
P’ra ficares a lembrar teu casamento,
Umas rimas trazidas pelo vento,
Vieram vosso enlace celebrar.
Que a alegria que hoje anda no ar,
Que a ventura que sentis neste momento
Sejam o augúrio, sejam o pressentimento
Da felicidade de quem muito sabe amar.
E quando, se acaso, o desânimo vier,
Seja vencido por vosso poder interno,
Porque o amor vence tudo o que quiser.
E pois que, por seu dom, o amor é terno,
Haja ternura na união Homem-Mulher,
E que a vossa união seja um amor eterno.
P’ra ficares a lembrar teu casamento,
Umas rimas trazidas pelo vento,
Vieram vosso enlace celebrar.
Que a alegria que hoje anda no ar,
Que a ventura que sentis neste momento
Sejam o augúrio, sejam o pressentimento
Da felicidade de quem muito sabe amar.
E quando, se acaso, o desânimo vier,
Seja vencido por vosso poder interno,
Porque o amor vence tudo o que quiser.
E pois que, por seu dom, o amor é terno,
Haja ternura na união Homem-Mulher,
E que a vossa união seja um amor eterno.
sexta-feira, 25 de janeiro de 2008
«Louvor à vida»
Gritarei louvor à vida em melodia,
Hão-de ouvir-me em sítios bem distantes;
Pararão para pensar por uns instantes
E, pensando, sentirão grande alegria.
Verão que a vida tem momentos fascinantes,
Que é sonho, invenção, é luz, é dia;
Epopeia, saga, canto, sinfonia,
Que fazem dos descrentes seus amantes.
Se no viver há mistérios insondáveis,
Deixemos que a razão seja vencida,
Libertemos fantasias saudáveis.
E se o nascer é o primeiro hino à vida,
Ecoaram no ar sons memoráveis
No dia em que nasceu a Margarida.
Gritarei louvor à vida em melodia,
Hão-de ouvir-me em sítios bem distantes;
Pararão para pensar por uns instantes
E, pensando, sentirão grande alegria.
Verão que a vida tem momentos fascinantes,
Que é sonho, invenção, é luz, é dia;
Epopeia, saga, canto, sinfonia,
Que fazem dos descrentes seus amantes.
Se no viver há mistérios insondáveis,
Deixemos que a razão seja vencida,
Libertemos fantasias saudáveis.
E se o nascer é o primeiro hino à vida,
Ecoaram no ar sons memoráveis
No dia em que nasceu a Margarida.
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