domingo, 11 de abril de 2010

A ternura dos sessenta

No dia 7 de Abril todos os anos há anos. Os deste ano foram assim:

Já é grandinha a menina;

Cresceu como que sem dar por ela,
É grande, foi pequenina.

Um a um lá vão passando…
A vida faz-se sonhando
Como quem pinta uma tela.

Muitos? Poucos?... Que interessa?
Cada ano um hino à vida,
Com emoção bem sentida
Que o passado não regressa.

Juntos já alguns passámos
(Dezoito, sem parecer).
Talvez que tantos não contem
Porque, quase sem querer,
Parece que ainda foi ontem.

Muitos voltes a fazer
Tais os que já celebrámos!
E que todos venham a ser
Como os que para trás ficaram
Que foram mas não passaram,
Pois recordar é viver.

Que a ternura dos 40
Pode estar sempre a florir
Sabêmo-lo nós de certeza...
Mas toda a idade é beleza,
Porque temos de convir
Há muito p’ra descobrir
Na ternura dos 60.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Aqui há preguiça...

Será que o meu astral anda por baixo? É que há 57 dias que não posto neste meu confidencial ‘memorial’. Imperdoável.Há que reagir, que a idade não perdoa. É a ocasião: a minha fiel e dedicada empregada Hermínia trouxe dos públicos (à borla, claro!) o «GLOBAL, o Diário gratuito de maior tiragem em Portugal». São 20, 20 páginas, das quais uma, a 12, me motiva. São sete, sete anúncios bem medidos que podem, espero, agitar a minha letargia. Não me falta por onde escolher. Como é meu hábito começo da esquerda para a direita e de cima para baixo. Assim: «Prof ABDALLAH – Êxitos em 48 horas». Eu só quero um exitozinho: o que me tire esta maldita preguiça do lombo. Leio e não me convenço: «Impotência sexual, dificuldade em engravidar, alcoolismo, amor, negócios, inveja, etc.». Por aqui não vou lá.
Vamos ao próximo. «Astrólogo médium africano – Prof. MAMBA». Este trata problemas de: «amor, amarração (o que será?), exames, doenças físicas e espirituais, negócios, impotência sexual, justiça, inveja e mau-olhado sorte na vida, vícios de droga, etc.». A lista é extensa mas não contempla a minha preguicite mais que aguda.
Adiante. «Astrólogo curandeiro médium africano – Professor SALIMO». Este não adianta, a lista é a cópia do anterior.
Vou ao da direita: «Grande Prof. GUIRASSY – 46 anos de experiência». Menu: «amor, insucessos, depressão, negócios, justiça, impotência sexual, maus-olhados, invejas, doenças espirituais, vícios de droga e álcool. Arranja e mantém empregos, aproxima e afasta pessoas amadas.». Mesmo com «pagamento depois do resultado positivo» não vislumbro mezinha que me garanta a assiduidade no meu ‘memorial’.
Talvez logo por baixo, um que é nome: «Professor KARAMBA Astrólogo médium africano». ‘Caramba’ é vocábulo frequente na minha terra quando se quer asnear de forma mais suave. Vamos a ver: «ajuda a resolver problemas sexuais, amor, justiça, inveja, negócios, família, sorte ou droga». O melhor é passar adiante. «Especialista em amor – Astrólogo médium africano Professor FOFANA». Presto atenção: «faz sucesso onde os outros falham» mas as especialidades são as mesmas: amor, impotência, etc…. .
Como a esperança é a última a morrer vou ao último: «Astrólogo Mestre DABO Vidente». Vou lendo a vasta lista de malinas a ver se acerta na minha: «o seu casamento está em crise? Quer recuperar o seu marido/mulher, namorado/namorada ou amante, amarra você quem desejar: marido/mulher, namorado/namorada ou amante e acabam-se os problemas».
Antes o meu mal fosse de amores, que lá haveria de o resolver. Mas a preguiça não tem cura. Assim: contra a preguiça…paciência, meu querido e confidencial ‘memorial’.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Do regime

Sou republicano por opção ideológica, que não por via láctea. Salazar, que tanto seria ditador em regime monárquico como o foi em regime republicano, chegou a dizer que a questão do regime não se punha. No que concordo. A República corresponde a uma evolução ideológica que se justificou no tempo da implantação e que hoje tem garantia de validade. A Monarquia é uma saudade não uma aspiração. Hoje devidiria mais do que uniria os portugueses. Espanha? Uma questão circunstancial (Franco). Dizem que a República não foi sufragada, e a Monarquia? Igualmente também não colhem argumentos como o dos custos do regime que, 'mutatis mutandis', se equivalem. Para mim o regime monárquico não só ofende como liquida o princípio natural e até cultural da igualdade à nascença. Num frente-a-frente ridículo na SIC de ontem um da causa monárquica (Gonçalo Câmara Pereira) argumentava: 'se o rei não presta, liquida-se'. Linda solução ("aliás" já em tempos admitida pelos princípios da filosofia política da ICAR em relação ao tirano). Faço votos para que as comemorações centenárias não conduzam a extremar posições maniqueistas mas produzam estudos sérios e serenos sobre o que de bom e de mau aconteceu nos nossos últimos 100 anos.
[Publicado no «Aliás», 31/1/10]

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

A Cabana

Mais pelo efeito ‘marketing’ (“um dos maiores fenómenos de vendas nos EUA”, duas edições de Outubro de2009) entrei em “A Cabana” ("The Shack") de Wm Paul Young. A história, em si, é banal: um casal, Mackenzie Allen Phillips e Nan e os seus três filhos, Josh, Katerine e Melissa, fazem uns dias de férias num parque de floresta no Oregon. Incompreensível e misteriosamente Missy desaparece provocando a dor natural e o desespero do feliz casal, com efeitos mais marcantes no progenitor. Passados três anos e meio, por impulsão de um bilhete anónimo (Papá=Deus) misteriosamente colocado na caixa do correio, Mack atreve-se a voltar ao local do crime (A Cabana) onde, às tantas, se vê frente a frente com três personagens misteriosas: «uma robusta mulher afro-americana» (Elousine), «uma mulher pequena, nitidamente asiática» (Sarayu), «um homem que parecia ter 30 e poucos anos oriundo do Médio Oriente»(Jesus).
O livro desenvolve-se à volta dos sentimentos místico-religiosos de Mack, num discurso linear, sem ‘flashs back’, não suscitando qualquer ‘suspense’ (pese embora a trama inicial ter laivos de policial). Mais do que provocar dúvidas metafísicas em relação a questões de facto importantes como o sentimento religioso ou o mistério da existência o A. mais parece um pregador-missionário a dar receitas empacotadas em diálogos de inocente simplicidade. Sinceramente surpreende-me o seu impacto numa sociedade já com outras exigências intelectuais e literárias. Para mim foi o tipo de livro em que desejei chegar ao fim não pela curiosidade no enredo nem pela substância ideológica mas pela vontade de o largar. O ‘Sol’ em entrevista ao A. [16/1 0/09] fez-lhe uma pergunta interessante: “É um livro demasiado controverso para cristãos e demasiado católico para leigos?” Admitindo que, para alguns, deve ser isso Young assegura que «para a maioria a história não é sobre cristãos contra leigos, de forma nenhuma». Um Cristo fora de qualquer religião? Nessa mesma entrevista o A. por um lado afirma «sinto-me seguro de que esta história está assente na teologia ortodoxa» e, por outro, «sou um seguidor de Jesus, mas não sou uma pessoa religiosa». E, em entrevista à Rádio Renascença [21/10/09] diz que o livro, «não sendo só para crentes, pretende mostrar a verdadeira dimensão de Deus».
Pessoalmente não descortinei em “A Cabana” qualquer elegância literária ou construção de enredo que me permita classificá-lo como ‘marcante’. Mas estou mesmo a ver que vai dar guião para filme.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Trassovivo

Frequento,com pouca asssiduidade, o atelier Trassovivo, do meu amigo Jorge Aragão, onde a Margarida dá largas à sua criatividade artística. É um grupo de amadores muito simpáticos e de muito valor já publicamente comprovado. Instado, de vez em quando, a tentar a minha inexistente arte pictórica já lhes disse que, se desenhasse um burro, para alguém identificar a figura teria que ver escrito por bem perto “isto é um burro”. “Já que não desenha escreva” sentenciam. Respondo não ao desafio mas à amabilidade com este

Cantinho dos Artistas


Universo sedutor simbólico
Pensar o todo pintar a parte
É arte

Espaço dimensão sem medição
Também de atelier de abrigo
Amigo

Local de liberdade criativa
Convite à reflexão imaginar
Sonhar

Onde a regra é libertar a fantasia,
Dar um gosto à vida pertencer
Conviver

Maravilha de criar em tela rasa
Dizer sem palavras emoção
Visão

Substâncias de produção
Acrílico óleo aguarela
A tela

Criações imaginadas
Cânone a sinceridade
Liberdade

Abstratos fingidos reais
Concepção em movimento
Sentimento

Chapéus feiras femininos
Cores que dão vida à vida
Margarida

Formas que a mente pariu
A paisagem o nu o lascivo
Trassovivo

Artistas a voar bem alto
Porque será que aqui estão
Aragão.

A questão ibérica

Uma recente entrada no blog “Aliás” sobre uma recente sondagem do jornal “El País” segundo a qual 40% dos portugueses aceitariam a união com Espanha suscitou-me este comentário:
A questão ibérica emerge historicamente de tempos a tempos.
Mais recentemente o paladino da união tem sido o "El País".Para além do que, na minha geração, nos ensinaram na Escola das nossas relações históricas com os nossos vizinhos, é útil racionalizarmos a questão. Pode o "El País" empertigar-se com os resultados da sondagem (não sei se os publicaria se menos favoráveis) mas a verdade é que ainda restam 60% de portugueses que teriam uma palavra a dizer. Aliás ponho reservas à aplicação da lei das maiorias em questões tão sensíveis como esta. Caso 51% dos portugueses fossem a favor da pena de morte esta deveria ser aplicada? Depois há a questão liminar do regime: Monarquia ou República? E se se caminhar para uma Europa das Nações que sentido faz unir o que está desunido há quase um milénio? E como reagiriam as regiões que em Espanha lutam (algumas ferozmente) pela independência? Quer-me parecer que, afinal, a classe mais interessada na união é a do capital ("et pour cause"!) mais alguns intelectuais que, no fundo, se envergonham de ser portugueses. Evocas, e muito bem, a cultura como factor essencial de identidade e independência nacionais. E cultura não é só livros, é sentenças sentidas do povo. Como apagar da memória colectiva o ditado "de Espanha nem bom vento nem bom casamento"? Para mim a conhecida frase de Lucáks "não há filosofias inocentes" assenta como luva a estas notícias: algo se pretende com elas. É o que se chama "gato escondido com rabo de fora". Tenho andado muito por terras de Espanha, admiro o seu passado, a sua cultura (identifico-me bem mais com o Unamuno do que com o Ortega y Gasset), e as suas gentes e tenho sérias dúvidas de que desejem a união.

Querela

Querela
Sobre o recente livro de Saramago, “Caim”, tem-se dito tudo e muito mais. Suspendi a minha opinião até ler o livro, como li os anteriores. Nas análises, nos frente-a-frente, nas entrevistas, debates, diálogos e blogs encontro alguns amores, muitos ódios e poucas imparcialidades. É vasta a legião dos ofendidos, quanto a mim despropositada porque, ou a fé é sólida e não é quemquer que a ofende ou é interesseira e receia concorrência. Parece-me vã a interpretação da Bíblia, se literal se simbólica ou metafórica. As duas coexistem e são legítimas: que Deus tenha criado o mundo em seis dias é, como quem diz, uma maneira de dizer, mas seria trágico não levar à letra o mandamento “não matarás” ou humanamente impossível não violar o outro que diz “não fornicarás” [Êxodo,20 – 13 e 14]. Nunca houve muita sintonia entre as duas dimensãoes da natureza humana, a Razão e a Fé e a verdade é que a expressão desta não facilita a aproximação da Razão : ouço proclamar (não sei com que convicção) no credo das missas :“Deus de Deus, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, consubstancial ao pai, por ele gerado e não criado…”. Convenhamos que é demasiado subtil e que bem poderia ser simplificado!
Ora Saramago, na minha leitura atenta, racionalizando não nega a legitimidade da fé dos que a têm (um doutrinador da Igreja, creio que Tertuliano, justificava-se sabiamente: “creio porque é absurdo”).
É abuso racionalizar episódios que, preto no branco, vêm descritos na Bíblia? Para a interpretação crente lá estão os exegetas (que estão longe da unanimidade). Para uma mundivisão agnóstica lá está a última frase, para mim a chave para a compreensão do texto: “A história acabou, não haverá mais nada que contar”. E a história é a escatologia de Saramago, simbolizada na pasagem de Caim por este “vale de lágrimas”, cruel e sem sentido porque regida pela lei do crime e castigo sem qualquer vislumbre de redenção.