terça-feira, 15 de abril de 2008

Vinicius de Moraes

Oiço, com prazer sempre renovado, O DIA DA CRIAÇÃO, de Vinícius de Moraes, dito pelo próprio na casa de Amália Rodrigues, em serão memorável com as presenças notáveis de David Mourão-Ferreira, Natália Correia, Ary dos Santos.Que maravilha!

[«Macho e fêmea os criou»Genesis, 1, 27]

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.
Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.
Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado
Hoje há um divórcio e um violamentoPorque hoje é sábado
Há um rico que se mata
Porque hoje é sábado
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado
Há um grande espírito-de-porco
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado
Há criançinhas que não comem
Porque hoje é sábado
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado
Há uma comemoração fantástica
Porque hoje é sábado
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado

Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, o Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra;
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário.
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias.
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos.
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia.
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia.
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias.
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos;
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade.
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo...
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente,
Porque era sábado.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

A las cinco de la tarde

Um dos poemas mais belos, que o meu saudoso Mestre Padre Manuel Antunes me ensinou a apreciar, é este do infeliz Federico Garcia Lorca, vitimizado pelo franquismo:

“LA COGIDA Y LA MUERTE “- 1ª parte do «Llanto por Ignacio Sanches Mejías»

A las cinco de la tarde.
Eran las cinco en punto de la tarde.
Un niño trajo la blanca sábana
a las cinco de la tarde.
Una espuerta de cal ya prevenida
a las cinco da la tarde.
Lo demás era muerte y sólo muerte
a las cinco de la tarde.
El viento se llevó los algodones
a las cinco de la tarde.
Y el óxido sembró cristal y níquel
a las cinco de la tarde.
Ya luchan la paloma y el leopardo
a las cinco de la tarde.
Y un muslo con un asta desolada
a las cinco de la tarde.
Comenzaron los sones del bordón
a las cinco de la tarde.
Las campanas de arsénico y el humo
a las cinco de la tarde.
En las esquinas grupos de silencio
a las cinco de la tarde.
¡Y el toro solo corazón arriba!
a las cinco de la tarde.
Cuando el sudor de nieve fue llegando
a las cinco de la tarde,
Cuando la plaza se cubrió de yodo
a las cinco de la tarde,
la muerte puso huevos en la herida
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
A las cinco en punto de la tarde.
Un ataúd con ruelas es la cama
a las cinco de la tarde.
Huesos y flautas suenan en su oídeo
a las cinco de la tarde.
El toro ya mugía por su frente
a las cinco de la tarde.
El quarto se irisaba de agonía
a las cinco de la tarde.
A los lejos ya viene la gangrena
a las cinco de la tarde.
Trompa de lirio por las verdes ingles
a las cinco de la tarde,
Las heridas quemaban como soles
a las cinco de la tarde,
y el gentío rompía las ventanas
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
¡Ay qué terribles cinco de la tarde!
¡Eran las cinco en todos los relojes!
¡Eran las cinco en sombra de la tarde!

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Grafitos

Não sei porquê abundam de novo as inscrições nas paredes dos prédios de Lisboa. Sou contra mas deve ser da idade. Há 30 anos eram mensagens mais ou menos revolucionárias ou convocatórias. Lembro duas das muitas

Greve geral – 1º de Maio

Greve geral – Todos os dias


1º de Maio – dia do trabalhador

1º de Maio – o orgulho de ser escravo

As de agora ou não trazem mensagem ou são esotéricas.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Lógica e evidência

Hoje comentava com a minha empregada uma notícia trágica: um homem matou a mulher e o cunhado e, a seguir, suicidou-se.
E ela: mas porque é que ele não se matou primeiro?

domingo, 30 de março de 2008

escolhas da treta

É dia de ver «as escolhas de Marcelo». Mais do que interesse é vício. Lá verei Maria da Flor Pedroso a fazer reverentemente de “yes, wooman” e pouco mais e a apoucar-se com um muitas vezes repetido “professor”. Professor que, para mim ainda é o que ensina, não o que opina. «Os meus comentários são sempre tendencialmente favoráveis ao PSD, mesmo quando não parecem» (durante uma aula aos militantes da secção D do PSD Lisboa – Expresso 21 de Março de 2008).
Perante isto que autoridade tem MRS para ridicularizar Jorge Coelho por, sendo comentador no “Quadratura do Círculo”, intervir num encontro de PS,s? E que independência nos garante nos seus comentários? Ó Professor, pelo menos poupe-nos à petulância das notas. Os seus ouvintes já tiveram muitas oportunidades de as receber (e, no meu caso, de as dar) em contextos mais adequados. E modere-se no ritmo (se isso lhe é possível). É que, se chamaram “picareta falante” ao A. Guterres então MRS deveria ser qualquer coisa como “metralha falante”.

domingo, 23 de março de 2008

Acabo de ler «O Lago Azul» (Fernando Campos). História linear construída a partir das infelicidades de D. António Prior do Crato, breve e infeliz rei de Portugal, e descendentes. Que encanto de literatura! Que suavidade narrativa (o Vento nem mesmo nos momentos de tragédia chega a ser ciclone )! Que autêntica cultura! E também que sageza! Na genérica pífia literatura portuguesa moderna que bálsamo para aqueles que procuram nas letras portuguesas o verdadeiro vernáculo moderno! Eia! Sus! Jovens aprendizes de escritor, apreciem e imitem o trabalho de pesquisa que o A. fez para produzir esta pequena mas valiosa pérola da nossa literatura.
Hoje satisfiz o meu gosto pela culinária e cozinhei para a Família
Cordeiro à minha maneira (4 pessoas)
Corta-se 1,5kg de cordeio (borrego, anho) em pedaços pequenos e limpam-se muito bem de toda a gordura. No fundo do tacho põe-se um ramo de louro e água a cobrir). Quando estiver a ferver botam-se lá para dentro os pedaços de cordeiro. Enquanto ferve(20’)
vai-se tirando o bedum com a espumadeira até a água ficar completamente clara. É altura de introduzir os tempêros: vinho branco (0,5 l), 12 dentes de alho, bastante azeite (se for virgem melhor), uma colher de chá de piripiri (malagueta, gindungo, guinda) e sal qb. Por cima as batatas (cortadas em pedaços granditos). Quando estas estiverem cozidas colocar um ramo de hortelã por cima, tapar e desligar. Cobre-se o fundo do prato com fatias de pão (durinho ou torrado) e o caldo a seu gosto. Acompanhar com salada (azedas, cunqueiros, agriões, rabaças ou, não havendo, chicória ou mesmo alface). O vinho deve ser tinto e graduado (14 ou 15º) mas convém não exagerar.
Em tempo : é um privilégio o borrego ter sido criado na Viladala.